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Fazer da ZLT uma estratégia de desenvolvimento para Aveiro

Diário de Aveiro Artigo de opinião

Fazer da ZLT uma estratégia de desenvolvimento para Aveiro

Artigo de opinião publicado no Diário de Aveiro na edição de 5 de abril de 2026.

Uma Zona Livre Tecnológica (ZLT) é, na prática, um espaço onde o Estado decide fazer algo pouco habitual: sair da frente. São territórios onde regras são simplificadas, processos acelerados e onde se permite testar tecnologia em condições reais, com menos entraves administrativos. Em muitos sentidos, são ambientes mais livres, mais experimentais e mais próximos daquilo que uma economia dinâmica exige. Atrevo-me a chamar-lhes de Zonas Liberais.

Aveiro tem hoje uma dessas zonas, coordenada pela Universidade de Aveiro. Mas tem também algo mais raro: a proximidade à capacidade de experimentação militar instalada na Base de São Jacinto. Em vez de tratarmos estas duas realidades como iniciativas separadas, devemos encará-las como uma única plataforma de inovação, onde conhecimento, experimentação e desenvolvimento industrial se reforçam mutuamente.

A distinção entre tecnologias civis e militares tem vindo a desaparecer. Drones, comunicações resilientes, sistemas autónomos e inteligência artificial são hoje desenvolvidos em ecossistemas híbridos, onde universidades, empresas e forças armadas colaboram. A guerra na Ucrânia tornou evidente a importância desta abordagem. Portugal não pode ficar à margem desta transformação e Aveiro reúne condições únicas para liderar este movimento, combinando conhecimento académico, tecido empresarial e acesso simultâneo a ambientes de teste civil e militar.

O passo seguinte é claro: promover tecnologias de duplo uso, criando condições para que empresas desenvolvam soluções aplicáveis tanto a contextos civis como de defesa. Isso implica menos burocracia, enquadramentos regulatórios alinhados e incentivos à instalação de empresas. Implica também reconhecer que a defesa pode ser um motor de inovação económica, algo que outros países já compreenderam e exploraram com sucesso.

Aveiro já viveu um momento transformador semelhante. Nos anos 50, o Centro de Estudos em Telecomunicações (ainda GECA) foi instalado em Aveiro, semente de um projecto maior que seria a Universidade de Aveiro e de um ecossistema tecnológico relevante ligado às telecomunicações. Hoje existe a oportunidade de criar um novo cluster, focado em sistemas autónomos e comunicações avançadas, com São Jacinto a assumir um papel central como polo de experimentação e atração de investimento.

Para tal, é necessário criar condições concretas para fixar talento e empresas, garantindo infraestruturas adequadas e uma ligação efetiva entre academia, indústria e utilizadores finais (civis e militares). A Iniciativa Liberal tem defendido que o crescimento depende da capacidade de criar ambientes favoráveis à inovação, com menos entraves e mais liberdade para empreender. Este é um caso claro onde essa visão pode gerar impacto direto.

Aveiro não precisa apenas de investimento, precisa de visão. Se conseguirmos integrar estas duas realidades e construir um verdadeiro ecossistema de inovação, estaremos a lançar as bases de um novo ciclo de desenvolvimento económico. Tal como há 50 anos, o futuro pode começar aqui.