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A cultura do acumular a ostentação de mostrar

Diário de Aveiro Artigo de opinião

A cultura do acumular a ostentação de mostrar

Artigo de opinião publicado no Diário de Aveiro na edição de 14 de setembro de 2026.

A tecnologia transformou quase todos os aspetos da nossa vida. Na saúde, aumentou a longevidade e poupou-nos sofrimento. Nos transportes e nas comunicações, aproximou geografias, encurtou distâncias e ajudou a criar uma cultura cada vez mais partilhada. O cinema, a música e a literatura são talvez os exemplos mais visíveis dessa transformação.

É precisamente sobre cultura, e sobre o impacto da tecnologia no modo como a consumimos, que vale a pena refletir. Há cem anos, o acesso à cultura era limitado, caro e muitas vezes reservado a uma minoria. Hoje, está à distância de um clique. Plataformas de streaming levam filmes e música diretamente até nós, em casa ou no telemóvel. Leitores digitais permitem transportar bibliotecas inteiras num objeto leve, discreto e portátil.

Apesar destes benefícios, há ainda uma resistência persistente. Há quem defenda que um filme em DVD ou Blu-ray tem uma autenticidade que se perde numa plataforma digital. Outros juram que o vinil oferece uma experiência sonora incomparável. E há também quem diga que só o livro em papel, com o gesto de virar páginas e o cheiro característico do objeto, permite uma verdadeira relação com a leitura.

Compreendo o apego afetivo. O que me parece mais discutível é transformá-lo em argumento universal contra a tecnologia. Sou um otimista tecnológico. Não por achar que tudo o que é novo é melhor, mas por reconhecer que, neste domínio, a tecnologia democratizou o acesso à cultura de forma extraordinária. Nunca foi tão fácil ouvir música, ver cinema, descobrir autores, transportar livros, aprender, rever, explorar.

Há, contudo, uma hipótese menos confessada para parte deste apego ao objeto físico: o colecionismo como forma de exibição. Receber alguém em casa e mostrar uma biblioteca imponente, uma coleção de vinis ou uma parede de DVDs é também uma forma de representação. Durante a pandemia, quantas videoconferências não transformaram estantes cuidadosamente enquadradas em cenário de autoridade intelectual? A biblioteca deixou de ser apenas um lugar de leitura para se tornar, muitas vezes, um adereço de identidade.

Não defendo que se deitem livros, CDs ou DVDs para o lixo. Também eu conservo os meus. Mas estão guardados, longe da vista e do pó. Para filmes e música, uso serviços digitais com boa qualidade. Para ler em viagem, levo um leitor eletrónico que pesa pouco e carrega dezenas de livros. O essencial, para mim, não está no suporte. Está no acesso, na experiência e no conteúdo.

Vivemos numa época em que parecer se tornou, demasiadas vezes, mais importante do que ser. Mas talvez seja precisamente por isso que devamos desconfiar um pouco da cultura usada como ornamento. A cultura não precisa de estar exposta numa parede para existir. Precisa de ser lida, ouvida, vista, discutida e vivida.