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Um Estado que não atrapalhe

Diário de Aveiro Artigo de opinião

Um Estado que não atrapalhe

Artigo de opinião publicado no Diário de Aveiro na edição de 14 de outubro de 2026.

No domingo passado, o vereador socialista Leonardo Oliveira questionou se o Estado consegue fazer aquilo que promete. Apontou a lentidão administrativa, os investimentos por executar e a distância entre anúncios e resultados, aspetos com que este liberal tende a concordar. Mas na sua pergunta seminal falhou no verbo: não é “consegue”, é “deve”.

Leonardo considera insuficiente discutir mais Estado ou menos Estado, mas defende ao longo do artigo que o Estado reúna em seu torno um infindável rol de responsabilidades. Ora, como é sabido, cada responsabilidade pública consome recursos, exige profissionais e cria procedimentos. E um Estado que acumula funções compromete a execução das essenciais. Discutir os seus limites faz, pois, parte da discussão sobre a sua competência.

Adam Smith reconhecia funções públicas na defesa, na justiça e em determinadas obras e instituições que a iniciativa privada não teria incentivo suficiente para assegurar. O liberalismo admite, portanto, a intervenção pública, mas exige que ela seja justificada. Não basta identificar um problema para concluir que o Estado deve assumir a sua resolução.

Quando o vereador socialista pede um Estado que planeie, coordene e construa, importa distinguir funções. Garantir regras não implica produzir diretamente os serviços. Financiar o acesso não exige ser proprietário das instalações. Proteger os vulneráveis não obriga a substituir a iniciativa dos restantes cidadãos.

Também não podemos presumir que as estratégias estão certas e que apenas a execução falha. Hayek explicou que o conhecimento relevante se encontra disperso pela sociedade. Nenhuma equipa técnica reúne toda a informação disponível entre cidadãos e empresas. Por isso, descentralizar decisões e permitir a experimentação de soluções é muitas vezes preferível a executar mais depressa um plano inadequado, concebido por um agente único e centralizado.

Na habitação e na saúde, reforçar meios públicos pode ajudar, mas não esgota as soluções. Na primeira, como liberal, defendo procedimentos simples, regras previsíveis e apoios dirigidos a quem precisa; na segunda, autonomia, incentivos e comparação entre prestadores públicos, privados e sociais. Como ajuda a compreender Milton Friedman, garantir o acesso e definir as regras não exige concentrar a construção ou a prestação de cuidados no Estado.

Na energia, licenças emitidas por dezenas de organismos e que demoram anos podem revelar excesso de obstáculos à iniciativa, e não falta de capacidade pública para executar. São, pois, necessários critérios ambientais claros, procedimentos proporcionais ao risco e decisões atempadas. Nos transportes, defendo mais concorrência. No transporte rodoviário nacional, os operadores privados demonstraram capacidade de prestar mais e melhores serviços, e a liberalização da aviação europeia ampliou a escolha e reduziu tarifas. Estes exemplos contrariam a presunção de superioridade da propriedade pública: o que deve contar é a cobertura, a frequência, a qualidade e o preço para os passageiros.

Quanto à digitalização, Leonardo Oliveira tem razão: colocar um formulário na internet não corrige um procedimento inútil. É preciso ir mais longe. Antes de digitalizar uma obrigação, importa verificar se ela precisa de existir. A melhor modernização pode ser eliminar a necessidade de pedir autorização. Por isso, discordo de excluir a desregulação da simplificação. Algumas regras devem ser melhoradas; outras, eliminadas.

Quando Leonardo apela a uma sociedade capaz de fazer acontecer coisas boas, encontro uma ideia profundamente liberal. A questão é como libertar essa capacidade: dando mais espaço aos cidadãos, às empresas e às associações para agir, inovar e resolver problemas, e não através da delegação numa entidade amorfa como o Estado.

Objetivos que ultrapassem ciclos eleitorais podem oferecer estabilidade. Contudo, não devem tornar as políticas imunes à revisão. Podemos concordar em melhorar a saúde ou aumentar a oferta de habitação sem concordar nos instrumentos.

Valorizar os trabalhadores públicos, formar equipas e reconhecer o mérito são propostas razoáveis. Falta, porém, discutir que tarefas devem deixar de existir. O medo de decidir combate-se com competências claras, regras compreensíveis e distinção entre erro e negligência. Essa autonomia deve ser acompanhada de consequências pelo desempenho, como bem apontou o Nobel James M. Buchanan.

Defendo um Estado competente nas funções que justificadamente lhe pertencem, intervindo o mínimo necessário. A sua qualidade mede-se também pela liberdade que deixa aos cidadãos para resolverem problemas sem depender dele. Um Estado melhor começa por saber dar espaço à sociedade.